Logo na primeira semana de maio, surgiu o primeiro trabalho pro desempregado que vos escreve: um freelance pra uma concorrência na Ogilvy. A primeira surpresa foi ver como a agência aqui, ao contratar um freelancer, não está apenas interessada em uma mão-de-obra extra pra ajudar no sufoco que é uma concorrência de pouco prazo, muitas expectativas e informações limitadas. Eles realmente te envolvem no processo: eu cheguei ainda durante a fase de brainstorming e precisei não apenas trabalhar no design das peças, mas também criando soluções pra campanha. Foi muito bom ter conseguido fazer o primeiro trabalho aqui na Ogilvy, que, apesar de distante, tem muita coisa em comum também com a agência de São Paulo. Eu ainda pude trabalhar em dupla com outro freelancer que foi contratado para o projeto, um excelente diretor de arte americano que vive em Berlin há 9 anos e é super gente boa. Além disso, o meu "chefe" durante o projeto também foi muito bacana, e o inglês meio capenga dele me fez sentir menos ridículo com o meu.
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O inglês é um capítulo a parte. Há algumas semanas a gente fez nosso primeiro amigo aqui na cidade, o Kevin. Ele é americano de Los Angeles, e veio prá cá há dois anos, disposto a nunca mais voltar pros EUA. Ele ainda não fala alemão fluentemente, embora se vire bem sem isso. Ele também é webdesigner e tem muitas coisas em comum com a gente. Eu, com a vida de "German Desperate Housewife" que levo, passo muito tempo na cidade com o Kevin e, com isso, acabo tendo de falar bastante inglês, o que tem sido ótimo. Mas, por outro lado, esse processo foi meio deprimente porque eu finalmente me dei conta de como meu inglês é uma BOSTA. Really. Quanto mais você precisa de uma língua estrangeira, ainda que a entenda bem, mais você vai tendo de preencher lacunas que nunca tinha se dado conta que existiam.
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Um apartamento vazio propaga muito barulho, especialmente num apartamento onde as paredes parecem ocas. A gente mora no último andar do prédio, que é uma coisa meio 2/3 de um andar, sabe? As paredes tem cortes diagonais que caem do teto, e em vários ambientes você tem que tomar cuidado pra não bater a cabeça. Depois de uns dias você acostuma, e na verdade o apartamento tem até um certo charme por ser assim. Mas as paredes são muito leves mesmo, é estranho. E então, numa noite dessas, por volta das 23h30, estávamos aqui tranquilamente assistindo DVD - mais especificamente, os clipes do Gondry - num volume normal para os padrões brasileiros, e eis que ouvimos três fortes murros vindo da parede da sala que divide o nosso apartamento e o do vizinho. A gente levou um puta susto, e na hora a gente se deu conta de que era por causa da TV. Desligamos tudo e fomos dormir. No dia seguinte, ainda com uma sensação meio ruim, tentamos ir até a casa do vizinho pra nos apresentar e pedir desculpas pelo barulho (apesar de que ele foi um escroto de não ter simplesmente batido na porta e pedido pra abaixar o som, mas ok). Ele não estava, e tentamos novamente um dia depois. Novamente ausente, então deixamos um educado bilhete em alemão, dizendo que gostaríamos de nos apresentar e que ele nos procurasse assim que tivesse tempo. Pode ser que venha hoje. Veremos. É melhor conversar agora do que termos um vizinho eternamente MAGUADO e disposto a nos denunciar por perturbação sonora.
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Aqui na Alemanha baixar música de graça (a menos que a banda esteja dando suas músicas) é proibido. Proibido mesmo. Eles detectam que você está baixando música e te mandam uma carta cobrando multa, etc. O que leva todo mundo a duas alternativas: comprar pela internet ou nas lojas. Ou seja, é praticamente uma vida pré-Napster. E a gente começou a ver que isso tem pelo menos um lado bom. Em São Paulo, a gente baixa música a qualquer hora, semanas antes de lançarem oficialmente até, e acho que essa facilidade tende a, de certa forma, "banalizar" o ato de escutar um álbum. Quando você vai até a loja e paga por ele, geralmente você volta pra casa e escuta o CD, manuseia o encarte, enfim, tem uma experiência mais duradoura com a música. E eu, pelo menos, sempre que baixava música grátis, escutava e tal, no iPod, no computador, mas geralmente ao mesmo tempo em que fazia outra coisa, como trabalhar, me deslocar pela cidade, etc. Essa semana comprei o primeiro CD aqui, o novo do Moby, que o Kevin comentou ter ouvido e achado bom. E realmente é. Agora to aqui ouvindo uns CDs que ele me emprestou (os dois últimos do Arcade Fire e um do Grizzly Bear) pra importar e não precisar comprá-los também (porque CD aqui é meio caro, varia de 13 a 18 euros - comprar música na Apple Store sai bem mais barato, porque é em dólar né?).
Há duas semanas, começamos a frequentar a escola de alemão. Duas vezes por semana, 1h30 por aula - tudo o que conseguimos no período da noite. OK. Primeiro dia de aula: eu, Andre, uma bonequinha chinesa, uma italiana meio fina, uma mexicana bem simpática, e uma brasileirinha. Gente, a brasileira. Tadinha. Não falava inglês, não conseguia repetir uma só palavra do que a professora explicava, e não sabia onde era New York. Não conseguia nem falar "New York". Daí você vê a cena e pensa: o que ela tá fazendo aqui? Ela só foi pra primeira aula, e depois desistiu, pois já estava com a volta pro Brasil definida (teve visto negado) e só estava ali porque já tinha pagado o curso e, provavelmente queria saber como era. Nas aulas seguintes, novas pessoas apareceram e desapareceram, com exceção da chinesinha, da mexicana e da italiana - esta última, por sinal, um personagem: discreta e classuda mesmo, de vez em quando faz umas críticas silenciosas (como quando a professora não sabia que Ankara era a capital da Turquia). Uma figura mesmo, só vendo. Quanto ao idioma, as aulas tem ajudado um pouco, porque além de sermos obrigados a falar apenas alemão ali (o que é bom, pois a escola é um ambiente em que você se sente menos vulnerável e pode exercitar com mais calma), temos um roteiro melhor do que estudar primeiro, e lá as regras do idioma são introduzidas mais naturalmente do que você simplesmente pegar um livro e começar a estudar a gramática.
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Amanhã vamos pra Londres, nossa primeira viagem pro exterior desde que chegamos. Eu gostaria de dizer que vai ser um pouco mais relax pelo fato de que estaremos numa cidade onde se fala uma língua que compreendemos, mas dada a péssima qualidade do meu inglês acima mencionada, nem sei mais. O que importa é que estaremos lá para comemorar o aniversário de uma Vasconcelos Lameiro da Costa, e ainda rodeados por mais queridos brasileiros expatriados adeptos do trabalho na publicidade. Cheers!

